O Pinguim de Geladeira

Um tiquinho de coisas soltas, podem formar uma coisa só no final das contas.

julho 2013 arquivo

O dia em que completei meus primeiros 5km oficiais.

Já falei aqui sobre meu hobby em correr. Já falei que é um dos raros momentos em que sou eu, minha cabeça e minhas músicas preferidas. É meu momento de esquecer tudo pra trás e só parar depois de alcançar o objetivo.

Tem alguns meses que eu to bem focada na corrida. Até entrei pra uma assessoria, pra ter acompanhamento especializado e melhorar meu condicionamento mais rápido pra atingir uma meta maior: Completar, sem caminhar, a volta da pampulha, em dezembro deste ano (18km).

No meu primeiro dia do treino com a assessoria, depois de saber que eu já corria há algum tempo, meu treinador perguntou: “Quantas corridas de rua vc já correu?”. E ficou de boca aberta quando eu respondi que nenhuma.

Aí eu fiquei pensando depois pq eu nunca tinha ido nestas corridas. Seria por medo? Medo de não terminar sem caminhar? Medo de não fazer em um bom tempo? Pão duragem de pagar mais de 100,00 nas corridas? Talvez uma mescla de tudo.

Aí fiquei sabendo da night run. Ia ter o pessoal da BH Race por lá (minha assessoria), seria de noite (adoro correr a noite) e custava 70,00 (não acho que seja barato, ou que seja um valor justo, mas em comparação com outras corridas, estava mais baixo)! Fiz minha inscrição e passei o final da semana todo tendo taquicardias quando pensava na corrida. E gerei um conflito interno bem estranho. Ao mesmo tempo que eu me sentia muito nervosa, eu pensava que era uma boba, pq 5km eu to acostumada a fazer. Porque o medo, a ansiedade?

Aí fui lá, no último sábado, dia 20, pra correr pra longe dos meus medinhos bestas. Quero dizer… Na verdade, quase não fui.

Não sei se todos sabem, mas eu não tenho carro. Tenho carteira, mas não dirijo, pq não tenho carro. Então dependo de ônibus pra me deslocar. No dia da corrida, verifiquei cedinho os ônibus que eu podia pegar. Sempre teria que pegar 2 ônibus (a corrida era na Lagoa da Pampulha, que pra quem também não sabe, fica LITERALMENTE do outro lado da cidade em relação à minha casa). Escolhi a rota mais rápida e mais cômoda para mim. Peguei o primeiro ônibus, desci e fiquei aguardando o segundo. Por mais de 40 minutos. Quando ele passou, estava tão cheio, que pensei que eu nem conseguiria entrar. Já comecei a entregar os pontos e a digitar um sms pro meu treinador guardar meu kit, que eu não poderia ir à corrida.

Eis que, no meio de um tantão de gente se amotoando no ônibus, vejo um senhorzinho, cabeça completamente branca, com a camisa da BH Race também. O Jean, que sempre me apóia e claro, estava comigo, falou: “ué, vamos também. se ele está tentando, pq vamos desistir?”. Subi no ônibus entupido e fui.

Ônibus cheio, passeata no centro, tudo estava levando a um fim não muito feliz. Murphy me pegou de jeito neste dia e não queria soltar! Por fim, chegamos ao local às +-19:45. Eu e um montão de corredores que foram se amontoando no ônibus lotado pelo caminho.

Deu tempo de pegar meu kit, amarrar o chip de qualquer jeito no meu cadarço (nota mental: prender melhor da próxima, pq é muito ruim correr pensando que perdeu o chip), prender o número de peito na camisa e me aquecer com a equipe enquanto engolia um sachê de gel de carboidrato.

Cada segundo que passava, mais nervosa eu ficava. Dava um frio na barriga cada vez maior. Quando me “liberaram” para a pista, fiquei meio zonza. Pus meu fone e fui pra concentração.Tava bem nervosa mesmo. Tinha muita gente e eu não sabia como funcionaria direito. Procurei o senhorzinho pra largar ao lado dele, mas não encontrei…

Veio a contagem regressiva. Muita gente pulando, cantando e dançando quando o “dj” gritou “VAAAAAAAI”, mas ninguém foi. Fiquei caminhando por quase 3 minutos, até chegar um ponto em que eu realmente conseguisse correr.

No início do percurso, me impressionou o tanto de gente que só caminhava. Quanta gente marca corridas pra bater papo. Eu ali, querendo correr, querendo me desafiar e desviar de tanta gente estava me atrasando. Fui bem pro cantinho, em cima do canteiro (ótima escolha, campeã!) e consegui passar da galera do blablabla. Os dois primeiros km foram muito tranquilos. Nem prestei atenção na minha música. Era esquisito, pq eu tava me sentindo imersa no silêncio… podia até ouvir meus passos. Tá, talvez eu tenha imaginado.

Aí veio a sede. Pelo que eu me lembrava do percurso no mapinha, no km2.5 teria um ponto de hidratação. Pouco antes de chegar, encontrei com o primeiro cara voltando. Nossa. Fiquei pensando só em como era possível que eu tivesse ali e um maníaco já tivesse VOLTANDO? Deixei de lado esse pensamento, corri pro outro lado da rua, para nao ver quem estivesse vindo e tentei voltar à minha imersão. Quando cheguei no ponto de hidratação, tava muito no pique. Pensei: “Eu já corri muito mais de 5km sem me hidratar nenhuma vez. Se eu parar agora pra pegar a água, vou diminuir o passo”. E passei direto. Continuei, sem dores, sem nada.

Tentei, por várias vezes encontrar alguém que eu pudesse seguir. Mas ou a pessoa era lenta demais, ou rápida demais. Isso me levou a seguir meu próprio ritmo. Assim como em todo treino.

Passei de novo pelo ponto de hidratação na volta e também não peguei água. Faltava pouco pra acabar. “Vai Amanda!”

Pouco tempo depois, começou a aparecer umas plaquinhas: “Faltam 300m!”. Nossa. Batimento cardíaco foi a mil! Nem corri de frequencimetro. Me conheço e sei que ficaria preocupada vendo os batimentos tão altos e acabaria diminuindo o ritmo. “Faltam 200m!” Só isso? Vambora!

Nesse momento, vi muita gente se dando as mãos pra cruzar a linha juntos. Gente se incentivando, gritando umas com as outras. Peguei toda força que eu ainda tinha e vrum! Disparei! Eu não tava ouvindo mais o Nike+, tinha até tirado o fone, não tinha idéia de como estava meu pace. Não sabia quanto tempo tinha que eu estava ali. Sabia que não seria nada extraordinário, mas esperava sinceramente, que estivesse abaixo do limite (gigante) que eu tinha estabelecido: 35minutos.

35 minutos era muito. Meu recorde é fazer em 29 minutos. Mas nas últimas semanas, treinando na esteira, não conseguia fazer em menos de 35min. Isto estava me decepcionando muito, pq comecei com a BH Race, justamente pq não conseguia diminuir meu tempo nos 5km.

Sei que de repente, no meio de tanto pensamento perdido e achado, vi um reloginho, muita gente gritando, muitos fotógrafos e muita gente posando para fotos. Eu não queria foto. Eu queria saber qual era meu tempo (aliás, todas as minhas fotos devem ter ficado horríveis!).

A sensação desses minutos finais é indescritível. Da uma onda de euforia, alegria, uma vontade de gritar… É engraçado, é como se fosse um treino. Vc faz 5km todos os dias, mas ainda assim, da toda essa sensação quando chegamos perto da linha de chegada. Só essa sensação já valeram os R$70,00 pagos.

Quando passei da linha de chegada, vi no relógio: 35:14. Nossa. A decepção tomou conta de mim. Parei na hora e, fraca, fui procurar o Jean. Na minha cabeça só passava: “puta merda. nem aqui? Dei todo o melhor de mim e não consegui melhorar nem em 14 segundos?”

Aí, depois que peguei a medalha, abocanhei a maçã que me deram e encontrei o Jean, é que ele me lembrou: “esse é seu tempo bruto. Vc caminhou um tempão até realmente chegar à largada”.

E de fato, no final do dia, entrei no site e vi. Tempo líquido: 31″51′. Poderia ter sido melhor? Sim, claro. Mas poderia ter sido pior também. Dei tudo de mim e disso eu tenho certeza. E esta sensação, a sensação de dever cumprido, é gostosa demais, gente!

Fiz cada km em, em média,6:22 minutos. Mantive o ritmo de 9.4km/hora. Não é muito. Ainda mais se compararmos com o doidão que chegou primeiro, fazendo em 16″24′. Nada mais que metade do tempo que eu fiz. Quem sabe um dia eu não corra assim, né mesmo?

Mas agora, a única coisa que me importa é que a sensação é indescritível. E que eu não sei se conseguirei ficar muito mais tempo sem essa sensação.

O dinheiro pago pela corrida? É alto mesmo. Muito abusivo, tendo em consideração que os organizadores devem ganhar todos os brindes que dão. Mas a sensação boa de ultrapassar a linha, o arrepio que da ao ver a galera se preparando pra cruzar e finalmente, a sensação de se superar, mesmo sem quebrar seus próprios recordes? Isso, não tem dinheiro que pague.

Próximas corridas, me aguardem.

E senhorzinho de cabelo branco a quem eu não tive coragem de agradecer, muito obrigada pelo incentivo involuntário e silencioso. Espero um dia poder retribuir de alguma forma.

mordendo a medalha – qualidade: péssima