O Pinguim de Geladeira

Um tiquinho de coisas soltas, podem formar uma coisa só no final das contas.

março 2013 arquivo

Coisas que aprendo com as crianças, parte I

Um dia em casa, encontrei meu primo Arthur, de pouco menos de 3 anos, sentado no chão de um comodo qualquer comendo tranquilamente uma banana.

Achando engraçado a forma despreocupada que ele estava admirando o teto, perguntei: “O que vc quer da vida, menino?”

Ele encarou a banana por uns segundos, depois me olhou e afirmou, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo: “Quero comer minha banana, uai!”

Achei lindo o imediatismo infantile dele. Ele não queria saber do depois. Queria comer a banana dele e pronto. Depois ele pensava no resto.

Por que com o passar do tempo perdemos essa perspectiva? Por que cismamos em pensar que devemos planejar toda a nossa vida milimetricamente, a médio e longo prazo?

Por que nos esquecemos de pensar no agora? De nos preocupar só com o agora?

Eu passei uns bons anos só pensando no meu futuro. Trabalhar / estudar demais para poder, no futuro, ter uma vida tranquila e feliz.

Eu tenho 24 anos. Tenho um destino inteiro pela frente. Tenho centenas de coisas que gostaria de fazer, mas fico ainda com o pé atrás, porque me assombra o médio/longo prazo. E o que eu ganho com isso?

Vou dizer que estou exatamente onde eu queria estar quando fiz um planejamento de médio prazo alguns anos atrás. E sabe em que isto resultou? Em uma vontade louca de mudar logo estes planos. Do que adianta fazer tantos planos e se empenhar tanto em conquistá-los, se um dia você mesmo pode se convencer de que eles não são mais tão importantes?

A minha idéia de “imediatismo” começou junto com 2013. Se acordei e vou pra academia, vamos malhar com vontade. Vamos esquecer do relógio na parede e a preocupação de chegarmos na hora no trabalho. To indo correr? Vamos estipular a meta do dia e vamos nos empenhar em alcançá-la. Vamos trabalhar? Vamos tentar nos preocupar com o hoje. Dar o melhor de mim para que o hoje fique dentro dos conformes.

Já refiz minha agenda de compromissos para que esteja mais propensa a colocar em prática este plano. Aliás, este é o meu plano de longo prazo agora: Viver mais a curto prazo, assim como uma criança de 3 anos.

Post polêmico (mais que mamilos)

(Só pra constar, este blog é pessoal e reflete apenas a minha opinião. Leia tudo incluindo um IMHO quando lhe convier, ok? Se for comentar, lembre-se de manter o respeito à minha opinião. Obrigada.)

Um dia estava lendo a discussão de uma menina que defendia com unhas e dentes a idéia de que um evento era machista pq não tinha palestrantes mulheres. A história é um pouco mais floreada, já que estávamos no Dia Internacional da Mulher e as pessoas que organizavam o evento propuseram desconto para as mulheres que fizessem inscrições neste dia. Mas isto não vem ao caso, visto que ela não reclamava disto e sim da falta de palestrantes meninas na grade.

Aí, alguns amigos dos organizadores responderam falando que foi enviado um email à n listas de discussão divulgando o evento e chamando as pessoas para o envio de palestras. Segundo eles, receberam alguns papers, mas nenhum de mulheres. A própria organização se posicionou mais tarde confirmando estas afirmações.

(um adendo: a computação é uma área ainda muito masculina. E em algumas áreas da computação é ainda mais raro encontrar mulheres. O motivo, cabe aos psicólogos explicar. Eu não sei. O evento do qual estou falando é de uma dessas áreas. Sendo assim, é completamente normal que nenhuma mulher tenha enviado palestra)

Mesmo após esta afirmação, a menina, que falava tanto de direitos iguais, começou com uma idéia de que só chamar para palestrar não era necessário, que tinha que ter uma atenção especial por ser mulher.

Aí. Chega, né?

Sou “feminista”, que apóia a causa e briga com babões (e babonas) que falam merda sem saber. Por que hoje em dia, o machismo ta tão enraizado que mulheres o praticam, sem perceber. Mas não sou militante da causa, que para em praça pública pra gritar isto a todos os cantos. Talvez eu até devesse ser mais.

Mas o que eu quero, de verdade, é que os direitos sejam IGUAIS. Quero receber a mesma coisa que os homens, quando desempenhar o mesmo papel, no mesmo nível de carreira que eles. Não quero ser, como já fui, discriminada no meu trabalho por ser a única mulher na equipe. Não quero que me tratem como homem. Só quero que não haja sexismo. Porque pra mim, isto não faz o menor sentido.

E pra mim, ter uma distinção na chamada de trabalhos para mulheres, é sexista. Pra mim, eventos de computação voltados SOMENTE para mulheres, é sexista. Por que merecemos um evento só para nós? Porque não conseguimos aprender com a mesma destreza com que os homens o fazem?

Na computação tem sim muito mais homem que mulher. Vai ser sempre difícil trabalhar neste meio até que você aprenda a relevar certas coisas. Porque geralmente, homem é machista de natureza. Vem de berço. Infelizmente.

E como não o ser, quando uma mãe exclama orgulhosa quando vê o filho crescendo saudável: “Segurem suas cabritas, pq meu bode ta solto!”?

Isso é machismo. E a mulher que diz isso não percebe. E quando se cresce ouvindo coisas como estas, é mais que normal que tenha esta mentalidade quando se cresce. Raros são os homens que param pra pensar, colocam a mão na consciencia e percebem que este tipo de pensamento é retrógrado, machista e ridículo. E até quando se dão conta de que algumas coisas são machistas, continuam agindo de certa forma, pq não conseguem perceber que é machismo. É difícil lidar com isso. É cultural.

Assim sendo, é difícil aprender a lidar com isso, mas é necessário. A menos que você queira ser a chata que vai proclamar um discurso feminista toda vez que um grupo de amigos (ou sua equipe de trabalho) comentarem sobre “a gostosa” que acabou de passar. Por que sim, isto é objetificar uma mulher e portanto, uma forma de machismo. Mas quem diria? Alguns homens até diriam que isso é apenas um elogio.

Eu aprendi a conviver com este tipo de coisa para me dar bem com o “meio” em que convivo. Já fui boba de aceitar o preconceito (já disseram na minha cara que eu, mesmo sendo a única graduada da equipe, só recebia menos por ser mulher – a única também) e já fui otária de pensar que toda a agressão sofrida era culpa minha (como achar que só fui objetificada na rua pq estava com aquela calça justa e que eu não deveria usá-la mais).

Acho que não ganho nada gritando aos quatro cantos que só sou tratada como sou porque sou mulher. Creio que ganho mais brigando quando convém e ignorando, também quando convém. Quando coloco na balança e peso as agressões. É muito mais grave, ao meu ver, um homem que bate na mulher, ou uma empresa que paga menos às mulheres, do que o cara que chamou de gostosa a moça que passou à sua frente. Sim, eu sei, possivelmente, os que objetificam desta forma, serão aqueles que tratarão com inferioridade uma funcionária ou esposa. Mas neste momento, não vejo como prioridade para ataques. Apenas abro o olho com a pessoa que o fez.

Quando me disseram que eu só recebia menos pq era mulher, não fui à luta. Eu era nova. Praticamente meu primeiro emprego, era boba. Estava aprendendo a me portar diante da sociedade machista em que vivemos. Hoje, sei que ninguém é doido de fazer isso comigo, ou com alguém que eu conheça, porque eu não sou mais a mesma. Eu aprendi muita coisa de lá pra cá.

E aí aprendi isso também. Que tenho que saber “dosar” quando um machismo deve ser reclamado ou não. Não vou incentivar. Só não vou aprontar um escarcéu por uma palavra chula proferida a uma mulher na rua. Até porque, às vezes elas até gostam, vêem isso como verdadeiro elogio. Cada um pensa da forma como quiser.

E com isso, com esse texto meio sem pé nem cabeça e cheio de opiniões aleatórias, finalizo minha opinião sobre o feminismo/machismo.

Vamos sim ficar de olho nos machismos, mas vamos soltar as pedras, beleza? O mundo já tem hostilidade demais pra gente encrencar com todo homem que soltar um “elogio” atravessado a uma mulher. Ou com todo evento de TI que não possuir mulher em sua grade de palestras, mas quiser fazer uma promoção (estas, tão comuns neste dia), no 08 de março. Um dia, a gente vai revertendo este quadro, quem sabe, né?

E não vamos caçar confusão, né? Me diz, por favor, qual a necessidade de se afirmar mulher em uma discussão técnica? Uma vez que todos os direitos devem ser iguais e que você quer ser vista como igual, se apresentar em uma lista de discussão, em uma rede social ou canais do IRC com “Oi, meu nome é Amanda, sou mulher e analista de sistemas” é no mínimo desnecessário.